Alta tecnologia e mentalidade

Alta tecnologia e mentalidade

Alta tecnologia e mentalidade


João Caraça
Director do Departamento de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian

   


É frequente ouvir-se que o grande entrave à modernização reside na mentalidade dos portugueses. Todos concordam que é necessário alterá-la para a tornar predisposta à mudança e à inovação. Mas ninguém quantifica o esforço a fazer. No entanto, esse exercício é possível – e clarificador.

Em primeiro lugar, é preciso que interiorizemos que é com os portugueses que estão em Portugal, neste momento, que temos de contar para conseguir qualquer novo ímpeto na economia e na sociedade. Ou seja, não é com miragens nem esperando por uma nova geração que nos modernizaremos.

Em segundo lugar, temos de perceber que, neste contexto, a inovação resulta de uma nova configuração no seio daquilo que existe. Para inovarmos precisamos de nos associar de modo diferente. A inovação une o que está separado e, igualmente importante, separa o que está unido. É este o senti- do da "destruição criadora" de Schumpeter. Se unir o que está separado se pode conceber como uma tarefa eivada de escolhos, na nossa sociedade, imagine-se o que nos espera quando dissermos que se torna imperioso separar o que está unido! O poder, a influência e a imobilidade das estruturas que estão estabelecidas constituem as verdadeiras barreiras à inovação.

Porém, não há volta a dar. A globalização das finanças e da economia baseou-se em produtos de sectores novos, nascidos há não mais de cinquenta anos (o intervalo de duas gerações). Estes sectores, de "alta intensidade tecnológica", "alta tecnologia", ou hi-tech, são caracterizados essencialmente por um novo processo de criação da tecnologia que os alimenta, um processo baseado em ciência fundamental e intensivo em I&D. Estes sectores (o aerospacial, os computadores, as telecomunicações e os produtos farmacêuticos biotecnológicos) possuem o mais alto valor acrescentado da indústria transformadora. Porém, o mais importante para esta discussão sobre modernização é o facto de os trabalhadores destes sectores estarem naturalmente menos virados para a tradição e para o passado. O seu sustento é a mudança; e o seu objectivo o futuro. Possuem uma nova perspectiva.

Por este motivo, é esclarecedora a leitura da recente publicação do Eurostat sobre "Science, technology and innovation in Europe 2006" (ver http/epp.eurostat. ec.europa.eu/ e procurar as últimas publicações sobre indicadores). Dos 36 milhões de trabalhadores na indústria da UE-25, 2,2 milhões encontram-se nos sectores hi-tech (isto é, 6,1% do emprego industrial). Em Portugal, os valores correspondentes são: um milhão de trabalhadores na indústria, do qual 23 mil nos sectores hi-tech (2,3%). Os números são claros e as implicações, também. A mentalidade muda com a tecnologia.

Em http://dn.sapo.pt/2006/12/07/economia/alta_tecnologia_e_mentalidade.html 

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